Sam Zell, fundador da Equity Group Investments
Legado · 01Sam Zell · 1941—2023

O Grave Dancer, a tese que mudou o real estate americano — e o primeiro que trouxe o Brasil para a Bolsa de Nova York.

Sam Zell construiu o mercado de REITs como ele existe hoje. Vendeu a maior carteira de escritórios do mundo por US$ 39 bilhões à Blackstone na véspera de 2008. E, quase sem ninguém notar, foi o primeiro estrangeiro a listar uma imobiliária brasileira em Nova York. O que resta da lição dele, duas décadas depois.

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Redação imobpost
21 de abril de 2026 · Leitura 12 min

Há uma foto de Sam Zell, tirada em algum momento dos anos 1990, que condensa o personagem. Ele está sobre uma Harley-Davidson, de jaqueta de couro, careca, barba branca, os olhos apertados para o sol. Dono da maior carteira de edifícios corporativos dos Estados Unidos. Bilionário. Com cara de quem não se importaria de perder tudo amanhã.

Zell morreu em maio de 2023, aos 81 anos, deixando um império imobiliário que atravessou seis décadas e duas crises estruturais do mercado americano. Mas o legado dele não é a foto. Não é o dinheiro. Não são as companhias. É uma tese de como ler o mercado — e uma convicção de que o ciclo imobiliário é, antes de tudo, um ciclo de capital.

Quem está na mesa no Brasil hoje, em 2026, com Selic a 14,75% e crédito imobiliário voltando a se destravar, convive com perguntas que Zell respondeu há quarenta anos. A diferença é que ele respondeu primeiro.

O garoto que revendia Playboy em Highland Park

A biografia de Zell começa numa fuga. Os pais dele, Bernard e Rochelle Zielonka, escaparam da Polônia no último trem que saiu antes da invasão nazista. Chegaram aos Estados Unidos em maio de 1941. Sam nasceu quatro meses depois, em Chicago.

A família se estabeleceu em Highland Park, subúrbio abastado de Illinois. O pai virou atacadista de joias e investidor imobiliário. O filho, segundo conta a autobiografia Am I Being Too Subtle?, começou cedo: na oitava série, comprava revistas Playboy no centro de Chicago e revendia para colegas da escola hebraica com 200% de markup. Aos 23 anos, ainda estudante de Direito na Universidade de Michigan, já administrava múltiplos prédios em Ann Arbor e tinha ganhado US$ 150 mil no ano.

O primeiro prédio que comprou — um edifício de 15 unidades que ele conseguiu em troca de moradia grátis enquanto administrava — virou lenda entre estudantes de real estate. Mas o dado relevante não é esse. O dado relevante é que Zell entendeu, antes da maioria, uma coisa simples sobre o mercado imobiliário: quem controla o fluxo de capital controla o valor do ativo. E o ativo, sozinho, é secundário.

Em 1968, formou a Equity Group Investments com o colega de fraternidade Bob Lurie. Era o embrião do que viria a ser o maior império multifamily dos Estados Unidos.

"Se todo mundo está fazendo alguma coisa, eu não quero fazer. Se ninguém está fazendo, provavelmente vale a pena olhar."Sam Zell, 2017

Grave Dancer: a tese que fez um império

O apelido "Grave Dancer" apareceu em 1976, num artigo que o próprio Zell escreveu para uma revista de negócios. Dançando sobre túmulos. A imagem era literal: ele comprava ativos descontados em momentos de pânico, quando ninguém mais queria tocar. Era contrarianismo elevado a método.

A tese tinha três camadas, e é aqui que ela importa para quem está no mercado brasileiro hoje.

A primeira: imóvel não é sobre imóvel, é sobre ciclo de capital. Zell argumentava que o valor de um ativo imobiliário reflete, acima de tudo, o custo do dinheiro que o financia. Quando o capital está caro, o ativo vale menos. Quando o capital afrouxa, o ativo sobe. Todo o resto — localização, qualidade construtiva, produto — é importante, mas subordinado.

A segunda: liquidez é prêmio, não custo. Zell foi um dos principais arquitetos do mercado moderno de REITs — os Real Estate Investment Trusts, o equivalente americano aos nossos Fundos Imobiliários. Em 1993, abriu o capital da Equity Residential na Bolsa de Nova York. A empresa cresceu até US$ 31 bilhões em ativos sob gestão, com 79 mil apartamentos em 301 imóveis.

A terceira: timing bate qualquer tese estratégica. Em fevereiro de 2007, Zell vendeu a Equity Office Properties Trust — então o maior REIT de escritórios do mundo — para a Blackstone por US$ 39 bilhões. Foi, até então, a maior operação alavancada de aquisição da história. Seis meses depois, estourou o subprime. Zell saiu no topo.

US$ 39 bi
A venda da Equity Office à Blackstone em 2007. Até aquele momento, a maior operação alavancada de aquisição da história. Seis meses antes do subprime estourar.

O brasileiro que Zell não foi — mas quase

Aqui entra uma parte da história pouco contada no Brasil. Em 1999, Zell criou a Equity International, uma holding dedicada a investimentos imobiliários em mercados emergentes. A tese era que, com EUA e Europa maduros, o próximo ciclo viria de países com déficit habitacional relevante, urbanização acelerada e mercado de capitais ainda incipiente.

O Brasil entrou no radar cedo. Em 2006, a Equity International levou a Gafisa à Bolsa de Nova York — a primeira incorporadora brasileira a ser listada em mercado internacional via ADR de nível III. Foi um marco silencioso. Um estrangeiro bateu à porta do capital americano com uma tese sobre o residencial brasileiro, e o capital abriu.

A operação da Gafisa em Nova York abriu caminho para uma década de IPOs do setor no Brasil. Cyrela, MRV, Even, PDG, Rossi, Tecnisa, Direcional — todo o mapa do residencial listado brasileiro foi, em algum grau, herdeiro da tese de que o Brasil tinha um produto imobiliário vendível para investidor internacional. Zell provou primeiro.

A Tribune, o tombo, e a lição que ficou

Nenhuma história empresarial bonita é linear. Em 2007, semanas depois da venda da Equity Office, Zell comprou a Tribune Company — dona do Chicago Tribune, do Los Angeles Times e do Wrigley Field — numa operação alavancada de US$ 8,3 bilhões.

Foi o pior negócio da vida dele. Menos de um ano depois, a Tribune entrou em recuperação judicial. Funcionários, demissões, processos. Zell perdeu pessoalmente US$ 315 milhões. Mais do que o dinheiro, perdeu parte da reputação de timing impecável que havia construído por quatro décadas.

Na autobiografia, Zell escreveria depois: "Fiz o deal da Tribune porque pensei que entendia de mídia. Não entendia." É a lição mais valiosa de um cara que já tinha nada a provar: a expertise é específica, não transferível.

O que resta da lição de Zell, hoje

O mercado imobiliário brasileiro em 2026 tem mais semelhanças com o americano dos anos 1980 do que gostaria de admitir. Juros altos estrangulando o crédito. Consolidação em curso entre incorporadoras. Capital estrangeiro chegando por multifamily e logístico. Mercado de FIIs amadurecendo, tropeçando, amadurecendo de novo.

Três frases de Zell continuam válidas como régua editorial.

A primeira: "Se você consegue explicar seu negócio em duas frases e seu concorrente precisa de uma hora, você já ganhou metade da briga." É um chamado à clareza estratégica que o mercado brasileiro ainda sofre para praticar.

A segunda: "Compre barato, venda caro, e no meio tome cuidado." Parece trivial. Não é. A maioria das operações ruins de real estate começa com alguém que comprou no pico achando que era meio do caminho.

A terceira: "Liquidez bate tudo." É a tese que sustenta o mercado de FIIs, que sustenta a conversa sobre tokenização, que sustenta a discussão sobre multifamily listado no Brasil.

A última aula

Em 2017, aos 76 anos, Zell publicou sua autobiografia. O título — Am I Being Too Subtle?, algo como "Será que estou sendo sutil demais?" — é uma ironia. Zell nunca foi sutil.

Duas semanas antes de morrer, em maio de 2023, deu sua última entrevista. Perguntado sobre o que diria a alguém começando agora no mercado imobiliário, respondeu: "Pare de achar que real estate é sobre prédios. Real estate é sobre pessoas. Pessoas que precisam morar, trabalhar, comprar, se divertir. Se você não entende o que elas querem, está só empilhando concreto."

É, provavelmente, a melhor síntese do que o imobpost tenta traduzir todo dia.

FONTES · Equity Residential, Nareit, Wharton Real Estate Center, The Wall Street Journal, Bloomberg, CoStar, "Am I Being Too Subtle?" (Sam Zell, 2017).

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